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Estava muito frio na hora que acordamos. Eram 5 horas da manhã. Acho porém que o frio na barriga era maior que o frio na temperatura lá fora.
Acordamos sem conversar muito e mal nos trocamos já estávamos saindo do quarto. Café da manhã na mão (os mesmos croissants de sempre) , entramos no prédio ao lado do nosso hotel.
Depois de um "bom dia" frio como aquela madrugada ainda escura seguimos rumo ao ônibus que nos esperava mais à frente.
Comemos nossos croissants e eu tentei dormir, o Rafa, que não consegue dormir em meios de transporte foi quietinho (meditando talvez?).
Depois de algum tempo alguns jovens universitários com nós, que apenas falavam outro idioma (nepali),, entraram barulhentos no ônibus e minha tentativa de dormir foi frustrada.
Cada um dentro do ônibus de alguma forma externalizava a ansiedade que aumentava a cada sacolejante kilometro vencido.
Depois de três horas beirando um rio de águas azuis como só o himalaia tem, chegamos num dos pontos onde o vale parecia mais fundo, e assustador. Só em imaginar cruzar o vale por uma ponte já daria calafrios mesmo numa pessoa que não tem medo de altura.
Nesse ponto o ônibus parou, e meio sem saber o que fazer fomos obrigados a sair.
Enquanto esperávamos sem saber direito pra onde ir, ouvimos um grito e já era tarde demais pra ver de onde o grito vinha. Ao olhar pra baixo só conseguíamos ver o cabo que prendia aquele individuo só pelos pés. Devido a profundidade do vale, esse mesmo individuo não se encontrava no campo de visão. Mas pelos gritos, sabíamos que o pulo tinha dado certo!
A ansiedade por um lado aumentava cada vez mais, mas o medo aos poucos ia cedendo lugar para a confiança.
Quem vai primeiro? Eu ou você? Pra quem fica, o desespero de ver a vida de seu amado por um fio. Pra quem vai, toda a insegurança de desvendar sozinho um mundo nunca explorado pelos dois juntos.
"Vamos decidir depois!"
Alguns saltos mais e a ponte foi liberada e passar por cima daqueles 160 profundos metros não foi tão ruim assim. Segurando firme no corrimão, olhamos no meio do vale para baixo como quem diz: "Hoje te venceremos" Só não sabíamos se era o vale ou o medo o destinatário dessa frase.
Do outro lado alguns preparativos nos diziam que a hora chegava e a vontade de voltar parecia ganhar alguma força. Pra evitar que isso acontecesse era só olhar em volta, a paisagem era de tirar o fôlego.
Pelo peso foi decidida a ordem dos saltos, e eu que queria pular antes acabei ficando pra trás.
Fomos todos para o meio da ponte, de onde esperaríamos não tão pacientemente assim a nossa vez.
O Rafa seria o segundo a pular e combinamos que eu não gritaria e nem o faria olhar pra trás. Na hora em que ele foi chamado foi como se um pedaço fosse tirado de mim. Até agora todas as experiências que tivemos em nossa viagem foram em conjunto, e aquele seria um momento do qual eu não faria parte, talvez a não ser eu seu pensamento.
Fiquei bem quietinha conforme o combinado, mas a minha vontade era de ir lá do lado dele e dizer o quanto eu o amava e que era pra ele me esperar lá embaixo.
Ele, meio nervoso também não olhava pra mim, e também não olhava para baixo. Passo a passo ele se aproximava do abismo e na hora do pulo eu só o vi por poucos segundos antes dele sumir na profundidade do vale. Na hora do salto, meu coração também pulou.
De braços abertos ele voou e eu com o coração apertado só queria saber se ele estava bem. Lá em baixo ele ficou bem pequeno, mas estava se mexendo e isso acalmou meu coração.
Nessa hora mais do que nunca eu me senti confiante para encontra-lo lá em baixo, e aos poucos fui vencendo o medo que involuntariamente havia se instalado em mim.
Alguns saltos depois era minha vez e eu tinha uma missão: encontrar meu amor lá em baixo.
Sem ninguém pra dizer tchau e sem pensar muito também, cada milímetro rumo ao precipício parecia um metro, e com meio pé pra fora eu voei também.
Por um átimo de segundo até que pareceu fácil, mas antes mesmo que um pensamento se formasse a queda veio rápida, e como!!! Não sabia mais pra onde olhar, não sabia mais onde era o chão e onde era o céu, e quando senti a resistência do elástico sabia que estava salva. Mas então de repente a mesma sensação de queda livre. O que estava acontecendo?
Mais frio na espinha e mais confusão. Sem que eu quisesse lagrimas escorríam dos meus olhos, ofuscando a magia do lugar e eu até que conseguia enxuga-las antes do próximo balanço do cabo.
De repente tudo parou e fiquei pendurada de cabeça pra baixo olhando pro rio. Eu estava viva, e como!! Meu coração estava a mil e aos poucos fui sendo levada para terra firme. Procurei o Rafa que com um assobio certificava-se que estava tudo bem.
Segurei no bambu e quando percebi já estava deitada numa caminha pra que os cabos fossem retirados.
Saí andando com as pernas bambas, só querendo dar um abraço no meu fofinho... Que estava com lagrimas nos olhos e me abraçou bem forte na hora que nos encontramos.
Descansamos um pouco lá em baixo, vendo outras pessoas vencerem o medo, e algumas poucas sendo vencidas por ele.
Tínhamos uma longa e íngreme subida pela frente, mas quem se importava? Nessa hora já nos sentíamos super-humanos, mais vivos do que nunca, fechando o ano que se acabava da mesma forma em que o vivemos: intensamente.
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