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Diário de Viagem
Templos eróticos e uma cidade medieval
Por Má   
06 de janeiro de 2007

Pegamos o trem bem cedo pra Satna, a mais próxima de Kajuraho, nosso próximo destino. Só tinha a gente no vagão e isso fez da nossa viagem muito calma e estranha. Pela primeira vez estávamos em algum lugar na Índia onde não parece que tem muito mais gente do que deveria, mas não posso dizer que foi ruim...

Chegando na estação, já sabíamos que não tinha ônibus direto pra Kajuraho, então acabamos fechando um táxi até lá (3 horas de viagem) que apesar de mais caro, não chega nem ao preço de uma passagem de ônibus para o mesmo tempo de viagem aí no Brasil. Fomos num dos carrões grandes, brancos e antigos que tem por aqui.

Chegamos na cidade já de noite e saímos para comer a melhor massa que já comemos fora da itália! O curry da comida indiana que me desculpe, mas não tem comida melhor que a italiana! Um ravióli de ricota com espinafre, com molho de tomate fresco. Assim dá até gosto sermos vegetarianos! Ficamos felizes por comermos uma comida realmente gostosa e fomos dormir contentes.

No dia seguinte fomos visitar os templos.

Kajuraho é uma cidade que durante algum tempo foi capital de um reino hindu. O rei, que devia ser "meio" ninfomaníaco construiu dezenas de templos religiosos onde o tema principal é o sexo. Não se sabe muito bem o motivo desses templos, mas a explicação mais aceita é que através do prazer sexual, o ser humano pode também encontrar o Nirvana, o estado de felicidade suprema.

Os templos são muito bonitos e as esculturas, perfeitas. Todos os templos são detalhadamente esculpidos por dentro e por fora, e mulheres semi-nuas formam a maioria das estátuas.


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Um dos dias mais incriveis da viagem
Por Má   
05 de janeiro de 2007

Fizemos check out no hotel meio decepcionados com Varanasi. Aqui talvez fosse o lugar que mais representasse a Índia pra a gente, e talvez por causa do Kumbh Mela, a cidade estava fantasma. Mas não tinha problema, estávamos indo para o lugar onde esperávamos encontrar o inimaginável.

A viagem de ônibus foi tranqüila, acho que estamos nos acostumando a viajar por aqui e na hora que estávamos quase chegando na cidade, um transito caótico se formava perto do local onde ficavam as barracas montadas para os peregrinos.

De dentro do ônibus já era incrível ver tantas cores, tantos Sadhus (os homens santos da índia) e não podíamos acreditar na hora que vimos um elefante gigante no meio disso tudo!

Nessa hora tivemos certeza que tínhamos feito a coisa certa. O bairro onde ficaríamos era um pouco mais pra frente, não tão perto assim do acampamento, e na hora que chegamos em Allahabad encontramos uma cidade moderna (para os padrões indianos) não tão suja, onde até as vacas pareciam mais felizes e saudáveis. Encontramos também um Mc Donalds e um tipo de shopping, coisa que a gente mal lembrava que existia no mundo.

Fomos dar uma volta e conferir o tal "shopping" e chegando lá percebemos se tratar de uma grande loja de departamento, com produtos indianos. Foi muito legal conhecer um lugar assim. A gente nunca, em nossa viagem, entra em casas das pessoas, e estar numa loja onde as pessoas compram coisas para a casa foi uma forma de sabermos um pouco como é o mundo doméstico das famílias de classe média da índia. Achamos muito engraçado ver que a loja estava lotada de gente andando de um lado pro outro "muvucando" o lugar, mas em compensação os caixas estavam vazios. Na hora de pagar e pegar a sacola com a compra, a sacola é lacrada para que a pessoa não coloque mais coisas dentro da sacola depois de comprar. Além disso, na hora de sair da loja, é necessário mostrar o recibo e a sacola para o segurança conferir se está tudo certo. Começamos a entender por que esse tipo de loja não da muito certo por aqui.

Compramos uma casquinha do McDonalds (incrível!) e ficamos vendo a galera passar. Nesse momento, percebemos que o tempo todo havia uma aglomeração na frente da escada rolante. Vimos que a galera tinha medo de entrar na escada rolante e ficava hesitando. Só depois de deixar alguns degraus passarem é que elas colocavam o pé na escada, meio desajeitadas. Alguns até desistiam por acharem muito difícil, preferindo dar a volta a se arriscar. Achamos muito engraçado e ficamos observando por algum tempo...

No dia seguinte fomos até a estação de trem comprar nosso ticket. Pra mim é sempre uma droga ir nas estações de trem. Pra mim elas reúnem o que a Índia tem de pior: sujeira, aglomeração, muita gente sentada no chão ao ponto de ser difícil andar de um lugar pro outro sem esbarrar em alguém, gente pedindo grana o tempo todo e tentando te passar um golpe e filas enormes e lentas. Esperamos por mais de meia hora sem que a fila andasse um passo, e por isso decidimos ir embora, afinal, já não era mais tão cedo assim e estávamos perdendo o Kumbh Mela! Seja lá o que isso fosse...


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Back to India!
Por Má   
02 de janeiro de 2007

Depois de finalizarmos o ano no Nepal, era hora de partir. Ficamos tempo demais aqui, o que não significa que não tenha valido a pena. Na verdade, nós até já sabíamos que iríamos sentir falta daqui. As pessoas são muito mais tranqüilas que na Índia. Mesmo quando se aproximam tentando vender algo o "approach" é diferente. Aqui, apesar das vacas também estarem presentes, o ambiente não é tão sujo e muito menos mendigos circulam por aqui. De uma forma geral o clima é mais leve e limpo que na índia.

Esperando por tudo, até por trem com cabras de novo, pegamos um ônibus pra a fronteira e de lá, outro ônibus para Varanasi. O primeiro ônibus estava ruim, mas sem cabras e a viagem foi tranquilamente desconfortável.

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O ultimo dia de um ano especial
Por Má   
01 de janeiro de 2007

Nosso ultimo dia do ano foi um dia bem tranqüilo. Fizemos algumas compras que só poderíamos fazer em Kathmandu e também reservamos nossos tickets de ônibus (que nos certificamos que não teria cabras!)

O dia passou devagar e sem muitos acontecimentos, afinal depois do salto do dia anterior, precisávamos nos recuperar!

Não tínhamos grandes expectativas para a virada, afinal estávamos num país onde essa data não é importante. O Nepal utiliza outro calendário e  o ano novo é ligado aos turistas ocidentais.

Quando estava anoitecendo nos preparamos para a "festa", que para a gente seria ir a uma pizzaria e depois uma baladinha de psytrance, da qual não sabíamos o que esperar.


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Um salto pra 2007
Por Má   
30 de dezembro de 2006
 Estava muito frio na hora que acordamos. Eram 5 horas da manhã. Acho porém que o frio na barriga era maior que o frio na temperatura lá fora.

Acordamos sem conversar muito e mal nos trocamos já estávamos saindo do quarto. Café da manhã na mão (os mesmos croissants de sempre) , entramos no prédio ao lado do nosso hotel.

Depois de um "bom dia" frio como aquela madrugada ainda escura seguimos rumo ao ônibus que nos esperava mais à frente.

Comemos nossos croissants e eu tentei dormir, o Rafa, que não consegue dormir em meios de transporte foi quietinho (meditando talvez?).

Depois de algum tempo alguns jovens universitários com nós, que apenas falavam outro idioma (nepali),, entraram barulhentos no ônibus e minha tentativa de dormir foi frustrada.

Cada um dentro do ônibus de alguma forma externalizava a ansiedade que aumentava a cada sacolejante kilometro vencido.

Depois de três horas beirando um rio de águas azuis como só o himalaia tem, chegamos num dos pontos onde o vale parecia mais fundo, e assustador. Só em imaginar cruzar o vale por uma ponte já daria calafrios mesmo numa pessoa que não tem medo de altura.

Nesse ponto o ônibus parou, e meio sem saber o que fazer fomos obrigados a sair.

Enquanto esperávamos sem saber direito pra onde ir, ouvimos um grito e já era tarde demais pra ver de onde o grito vinha. Ao olhar pra baixo só conseguíamos ver o cabo que prendia aquele individuo só pelos pés. Devido a profundidade do vale, esse mesmo individuo não se encontrava no campo de visão. Mas pelos gritos, sabíamos que o pulo tinha dado certo!

A ansiedade por um lado aumentava cada vez mais, mas o medo aos poucos ia cedendo lugar para a confiança.

Quem vai primeiro? Eu ou você? Pra quem fica, o desespero de ver a vida de seu amado por um fio. Pra quem vai, toda a insegurança de desvendar sozinho um mundo nunca explorado pelos dois juntos.

"Vamos decidir depois!"

Alguns saltos mais e a ponte foi liberada e passar por cima daqueles 160 profundos metros não foi tão ruim assim. Segurando firme no corrimão, olhamos no meio do vale para baixo como quem diz: "Hoje te venceremos" Só não sabíamos se era o vale ou o medo o destinatário dessa frase.

Do outro lado alguns preparativos nos diziam que a hora chegava e a vontade de voltar parecia ganhar alguma força. Pra evitar que isso acontecesse era só olhar em volta, a paisagem era de tirar o fôlego.

Pelo peso foi decidida a ordem dos saltos, e eu que queria pular antes acabei ficando pra trás.

Fomos todos para o meio da ponte, de onde esperaríamos não tão pacientemente assim a nossa vez.

O Rafa seria o segundo a pular e combinamos que eu não gritaria e nem o faria olhar pra trás. Na hora em que ele foi chamado foi como se um pedaço fosse tirado de mim. Até agora todas as experiências que tivemos em nossa viagem foram em conjunto, e aquele seria um momento do qual eu não faria parte, talvez a não ser eu seu pensamento.

Fiquei bem quietinha conforme o combinado, mas a minha vontade era de ir lá do lado dele e dizer o quanto eu o amava e que era pra ele me esperar lá embaixo.

Ele, meio nervoso também não olhava pra mim, e também não olhava para baixo. Passo a passo ele se aproximava do abismo e na hora do pulo eu só o vi por poucos segundos antes dele sumir na profundidade do vale. Na hora do salto, meu coração também pulou.

De braços abertos ele voou e eu com o coração apertado só queria saber se ele estava bem. Lá em baixo ele ficou bem pequeno, mas estava se mexendo e isso acalmou meu coração.

Nessa hora mais do que nunca eu me senti confiante para encontra-lo lá em baixo, e aos poucos fui vencendo o medo que involuntariamente havia se instalado em mim.

Alguns saltos depois era minha vez e eu tinha uma missão: encontrar meu amor lá em baixo.

Sem ninguém pra dizer tchau e sem pensar muito também, cada milímetro rumo ao precipício parecia um metro, e com meio pé pra fora eu voei também.

Por um átimo de segundo até que pareceu fácil, mas antes mesmo que um pensamento se formasse a queda veio rápida, e como!!!  Não sabia mais pra onde olhar, não sabia mais onde era o chão e onde era o céu, e quando senti a resistência do elástico sabia que estava salva. Mas então de repente a mesma sensação de queda livre. O que estava acontecendo?

Mais frio na espinha e mais confusão. Sem que eu quisesse lagrimas escorríam dos meus olhos, ofuscando a magia do lugar e eu até que conseguia enxuga-las antes do próximo balanço do cabo.

De repente tudo parou e fiquei pendurada de cabeça pra baixo olhando pro rio. Eu estava viva, e como!!  Meu coração estava a mil e aos poucos fui sendo levada para terra firme. Procurei o Rafa que com um assobio certificava-se que estava tudo bem.

Segurei no bambu e quando percebi já estava deitada numa caminha pra que os cabos fossem retirados.

Saí andando  com as pernas bambas, só querendo dar um abraço no meu fofinho... Que estava com lagrimas nos olhos e me abraçou bem forte na hora que nos encontramos.

Descansamos um pouco lá em baixo, vendo outras pessoas vencerem o medo, e algumas poucas sendo vencidas por ele.

Tínhamos uma longa e íngreme subida pela frente, mas quem se importava? Nessa hora já nos sentíamos super-humanos, mais vivos do que nunca, fechando o ano que se acabava da mesma forma em que o vivemos: intensamente.

 
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